sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Coragem, o cãozinho.



Cena acri-doce de primavera: Estava eu saindo pelo portão do condomínio onde moro, pretensamente me dirigindo ao ponto de ônibus, para enfrentar mais uma sexta-feira de muito sono acadêmico na Cidade Universitária, a mais uspiana das universidades. Eis que, num lance fortuito, olho para a direita antes de me virar à esquerda para seguir caminho, e me deparo com um cãozinho, um poodle branquinho, de coleira, solto na mesma calçada que eu, alguns metros acima. O cãozinho olha para mim, eu olho para ele, olho em volta à procura do dono. Nada. Nosso cãozinho está encoleirado, eu suponho que o dono esteja por perto e sigo meu caminho, não sem antes dar mais uma última olhada no cãozinho, que agora atravessa a rua onde moro, em direção à outra calçada. Novamente, ninguém no entorno. Com exceção dos porteiros e seguranças dos prédios em volta, eu e o cãozinho somos os únicos na cena. Sequer há carros na rua, o que explica o sucesso do agora amigo canino em executar a travessia. A cena de um cão sozinho me compadece, mas não havia muito que eu pudesse fazer, senão torcer pelo mesmo.
E sigo meu caminho enquanto fico pensando no que a sorte reservará para aquele pequeno animal felpudo e provavelmente indefeso, haja vista que é domesticado.
Pois bem, eis que chego ao ponto de ônibus, que fica numa avenida a cerca de 100 metros de onde eu moro. O ônibus custa a chegar, o que me faz pensar que já deve ter passado, o que me faz relaxar e admirar a "paisagem": uma linda mulher oriental, belo rosto, belos olhos "amendoados", vou parar por aqui mas quem tiver imaginação pode ter certeza de que ela atende também outros requisitos interessantes. E para minha surpresa, uma garota com a camiseta da Escola Politécnica, companheira uspiana. Eu, claro, sou um coitado que não tem a mínima habilidade com mulheres - mais do que isso, tenho quase fobia de conversar com mulheres - e não me ponho a conversar com nenhuma das duas. Mas, após uma verdadeira e boa "babada" na oriental, eis que reparo que a "politreca" não só não é nenhuma "treca" - muito pelo contrário, tem um belo rosto - ainda por cima está usando uma daquelas calças jeans de cós inexistente - pensei em escrever "extremamente baixo" mas "inexistente" define MUITO melhor - e provavelmente não reparou que sua calcinha - se é que ela está usando, imagino que sim, ninguém é louco de usar calça jeans sem nada por baixo - está totalmente pra dentro desse cós inexistente, o que deixa seu...Derrière...TOTALMENTE em evidência. Não fosse o povo todo que estava junto conosco no ponto, talvez eu tivesse tirado uma foto daquilo pra colocar aqui, em lugar do cãozinho Coragem.
Epa, por falar em cãozinho Coragem, é melhor eu voltar ao assunto. Não sei porque estou falando essas coisas sobre as belas frequentadoras fortuitas do mesmo ponto de ônibus deste que vos fala. Vai ver é pelo fato de só aparecer "tiazona" por aquelas bandas e raramente eu ter a oportunidade de ver uma beldade daquelas, quanto mais duas!Mas voltando ao caso do cãozinho...
Então, eu dizia que cheguei ao ponto de ônibus e quando consegui sair do estado inebriante causado pelas duas criaturas de nosso bondoso Deus, eis que botei reparo em um quadrúpede caminhando em minha direção, cada vez mais perto, cada vez mais nítido, cada vez mais parecido com o cão amigo de minutos atrás. E eis que o pequeno se achega a algumas pessoas, se achega à politreca, à oriental, se achega a mim e eu perplexo olho para aquele guerreiro que conseguiu se mover por alguns pedaços razoavelmente perigosos de travessia e chegou firme e forte, inteiriço, no mesmo lugar onde eu estou naquele momento.
Tento uma aproximação, mas o pequeno, apesar de valente contra os automóveis, é medroso e astuto no trato com seres humanos. Assim que eu tento estender meu braço em direção a ele, o pequeno se afasta aos poucos. O semáforo (farol, sinal, sinaleiro...) se fecha (fica vermelho, blablabla) e os carros param por alguns instantes de passar pela avenida. O cãozinho se aventura pela faixa da direita, se aventura pela faixa do meio, se aventura pela primeira faixa rápida...Volta à faixa do meio. Um carro se aproxima em velocidade média, temo pelo cãozinho distraído. O motorista habilmente desvia do cão Coragem. Ufa!
Algumas crianças (pré-adolescentes, eles diriam se lessem isto.) passam vindas do colégio vizinho, rumando ao McDonald's das redondezas. O cão as segue, aparentemente entretido com tanto rebuliço.
Agora quem está órfão sou eu. Perco Coragem de vista mas não perco a esperança de que o pequeno encontre seu caminho. Meu ônibus chega. Entro. Pago a passagem. Encontro um lugar para me sentar e refletir sobre a sorte de Coragem. Olho pela janela. Eis que o ônibus passa ao lado de uma ladeira de mão única, onde os carros descem, invariavelmente rápido demais. Coragem está ali no meio da ladeira, ainda vazia, o semáforo (farol, sinal, sinaleiro...) havia acabado de abrir. Nem sinal das crianças. Coragem, como não recebe atenção, fica olhando em volta, na certa em busca de seu lar. Ou em busca de um novo lar, quem sabe. Chega uma mini-van, em alta velocidade, quase "mirando" Coragem. Meu coração pula pela boca. A motorista habilmente consegue frear o suficiente para ficar a um palmo de meu pequeno amigo. Coragem continua, indiferente, sua busca. O ônibus vai embora. Sigo pensativo minha vida.

Post Scriptum: originalmente minha intenção era encontrar "Coragem" no final do dia, depois de voltar da USP. Minha intenção foi malograda, não mais o vi desde então. Espero que tenhas encontrado seu caminho, cãozinho!Tenha Coragem!

2 ociosidades:

Bruxinha disse...

conseguir estar lá ao ler, sentir o q sentiu...
Adoro vc!!
bjs

Nega disse...

oxiiiiiii

tadinho do caozinho.